Instituto Schaeffer

Quando chega dezembro, sempre gosto de fazer uma leitura que tenha a ver com a época de Natal. Neste ano, o escolhido foi O Quebra-Nozes, de E.T.A. Hoffmann; mais especificamente, a versão recontada por Alexandre Dumas.

Essa obra já foi imortalizada em diferentes mídias, como o balé de Tchaikovsky e até um filme da Barbie. Essa adaptação, inclusive, era a referência que eu tinha em mente antes de ler o livro. Por outro lado, minha memória sobre a trama era vaga. Acredito que essa seja uma daquelas histórias que aprendemos por osmose, apenas por viver neste mundo, mesmo sem nunca ter lido ou tido contato direto com o original.

Eu não poderia ter pedido por uma experiência melhor. Cheguei à leitura sem saber muito, livre de expectativas, e fui grandemente surpreendida. Ou melhor, magicamente surpreendida.

Já esperava entrar em contato com uma obra infantil, com um quê de conto de fadas, algo de fantasia situado em um mundo mágico. No entanto, fui presenteada com um conto fantástico, e isso fez toda a diferença. Ao contrário da fantasia, que estabelece o mágico, o extraordinário e o deslumbramento como algo real dentro daquele universo, O Quebra-Nozes brinca com a nossa percepção. Será que é real? Será que não é? Será que a nossa protagonista, Marie, viveu de fato tudo aquilo?

Essa construção de expectativa é uma das características mais charmosas da obra. Ela entra no terreno dos contos de fadas, mas com uma proposta que, para a época, era bastante revolucionária: a do conto fantástico. Trata-se de um gênero que ficou muito famoso décadas depois, principalmente entre escritores latinos, não só como técnica, mas como abordagem narrativa.

Como toda boa história natalina, a trama começa na véspera dessa data tão marcante. Acompanhamos Marie, filha de um homem importante de Nuremberg, que aguarda com seu irmão, Fritz, a chegada do Menino Jesus e os tão esperados presentes. Aqui, há um detalhe que me chamou atenção: por ser um livro do século XIX, não é o Papai Noel quem deixa os presentes embaixo da árvore, mas o Menino Jesus. Muito curioso.

Não cheguei a pesquisar a fundo se isso se deve à cultura alemã da época, mas, considerando o quanto a figura do Papai Noel domina nosso imaginário atual, esse detalhe foi encantador. É o tipo de experiência que ler um clássico proporciona: mesmo em uma história fantástica, somos puxados para uma pequena viagem no tempo, para a época e o lugar em que o livro foi escrito.

Além da celebração, Marie aguardava a visita de um amigo de seu pai, o padrinho Drosselmeyer. Ele era um famoso relojoeiro e inventor que gostava de consertar coisas e sempre trazia brinquedos incríveis. Depois de aguardarem a chegada dele, as crianças adentram na sala percebendo o padrinho e os presentes deixados pelo Menino Jesus, sob a árvore. 

A menina recebeu exatamente o que desejava, incluindo um vestido de seda. Porém, há um item esquecido no canto da árvore, ao qual ninguém deu atenção. Nem mesmo seu irmão, que ama brincar com soldadinhos e fingir ser general de um grande exército, se interessa. É o pequeno Quebra-Nozes. Embora considerado feio e simples demais para despertar curiosidade em meio a tanta novidade, ele conquista imediatamente o coração de Marie, que passa a protegê-lo com carinho.

Como uma criança que sente aquela inquietação de passar mais tempo com seu brinquedo novo, Marie pede à mãe para ficar um pouco mais tarde na sala onde os presentes ficam guardados. Sendo ela uma filha bondosa e obediente, a mãe atende ao desejo sem muita dificuldade. Mas algo extraordinário acontece nessa noite de Natal.

O relógio toca, anunciando que uma batalha está a caminho. Marie percebe, então, que suas bonecas, os soldadinhos de seu irmão e todos os outros brinquedos ganharam vida. E mais: estão sendo liderados pelo Quebra-Nozes em uma guerra contra centenas de ratos.

Ela fica sem reação, observando aquela cena surreal, enquanto os soldados, ao lado do bravo Quebra-Nozes, lutam contra os roedores que tentam destruí-los. O líder desses invasores, o Rei dos Ratos, é uma figura grotesca, descrita como tendo sete cabeças e, sobre elas, sete coroas.

Para um cristão que já leu o livro de Apocalipse, talvez essa imagem lembre algo. No capítulo 12, surge a figura do dragão de sete cabeças que usa sete coroas (Ap 12:3), sendo finalmente apresentado como o diabo, a serpente enganadora do Éden (Ap 12:9). É importante ressaltar que desconheço a crença do autor, mas é impossível negar que ele utiliza esse símbolo de maldade máxima, do inimigo da humanidade, para representar o vilão da história. Ao buscar o Natal, não esperava encontrar o apocalipse. Mas, se pensarmos bem, é a coisa mais coerente a acontecer. 

A batalha é tão feroz que Marie observa atônita, sem saber o que fazer. Entretanto, quando a maré da luta vira, os brinquedos começam a perder e ela percebe que o Quebra-Nozes será capturado e destruído, a menina age. Em um ato de coragem, joga seu sapatinho, acertando em cheio o Rei dos Ratos e salvando o seu protegido. No entanto, isso também faz com que o vidro do armário de brinquedos se espatife, cortando seu braço. Ali mesmo, ela desmaia.

A menina acorda no dia seguinte tentando entender se aquilo foi sonho ou realidade. Assim como nos, leitores. Mas a dor no braço a lembrava do corte e do incidente daquela noite. Sua mãe zelosa permanece ao lado da cama, enquanto os demais indagam sobre o que houve. Marie narra as fantásticas aventuras noturnas, a bravura do Quebra-Nozes até o fim e o vidro quebrado em sua tentativa de salvá-lo. Mas, obviamente, nem seu irmão, nem sua mãe, nem seu pai acreditam no relato.

O próprio médico afirma que ela continua confusa. Foi encontrada desacordada. Perdeu sangue. Foi o choque. Dizem que ela tem uma cabeça fértil. Todos buscavam uma justificativa plausível para o ocorrido. Até a própria Marie se questiona, porém, no fundo, sentia que aquilo fora real.

Marie se encontra como Lúcia, em As Crônicas de Nárnia: uma crente em meio àqueles que não acreditam em seu relato. Assim como o evangelho nos diz, para o mundo as boas notícias que anunciamos são loucura (1 Co 1:18). Muitas vezes, aquilo que vivemos, descrevemos ou testemunhamos é tratado com deboche, riso ou descrédito. Marie passou por isso.

Porém, entra pela porta Drosselmeyer, agora com o Quebra-Nozes consertado. Afinal, ao lado da menina desacordada, foram encontrados vários brinquedos quebrados e com marcas de roedores. Marie reforça seu relato sobre o que aconteceu. Em vez de negar, o inventor ri e diz que contará a história de como aquele boneco se tornou um Quebra-Nozes.

Com um excelente recurso de “história dentro da história”, descobrimos que, em um reino distante, havia um rei que não muito sensato, mas que gostava demais de pratos feitos com bacon e carne de porco. Certo dia, ao pedir que preparassem suas comidas favoritas, a Rainha dos Ratos apareceu na cozinha solicitando um pouco do bacon para alimentar o seu povo. A rainha, bondosa, cedeu. Porém, os ratinhos, completamente descompensados, pegaram muito mais do que deveriam.

Quando o rei provou sua comida, percebeu imediatamente que algo estava errado: não havia bacon suficiente. Depois de entender o ocorrido, decidiu se livrar de todos os roedores do reino. Para isso, chamou um famoso inventor, cujo nome era Drosselmeyer. Criando ratoeiras extremamente eficazes, o inventor praticamente eliminou a praga. Mas a Rainha dos Ratos jurou vingança.

Nesse período, o rei e a rainha daquele reino esperavam uma filha. Mesmo a menina sendo cercada por soldados, vigias e até gatos de guarda, em uma noite a Lady Rato conseguiu lançar uma maldição sobre a criança. A princesa cresceu feia, tão feia quanto um quebra-nozes.

Revoltado, o rei colocou a culpa no inventor. Afinal, ele não havia conseguido eliminar todos os ratos e tampouco encontrar uma forma de quebrar a maldição para devolver sua filha à antiga forma.

Desesperado, Drosselmeyer procurou um amigo que observava os céus. Descobriu, então, que para a Princesa Pirlipat (esse era o nome da filha dos reis) voltar ao normal, seria necessário que um jovem quebrasse a noz mais dura do mundo e a entregasse a ela. Esse jovem precisava ter características muito específicas e, após o feito, deveria dar sete passos para trás sem ser interrompido.

O inventor procurou pela noz mais dura durante quatorze anos, mas não a encontrou em lugar algum. Voltando triste ao reino, pediu ao rei permissão para se despedir da cidade de Nuremberg, antes de ser executado. Decidiu visitar seu irmão, um famoso dono de uma loja de brinquedos.

Para sua surpresa, o irmão não apenas possuía a noz mais dura do mundo (que havia chegado até ele pela mão de um viajante desconhecido, ou, como podemos chamar, pela providência), como também seu sobrinho tinha a idade certa e preenchia todos os requisitos para ser aquele destinado a cumprir a tarefa.

E lá foram eles de volta ao castelo. Quando a Princesa Pirlipat viu o jovem, desejou que fosse ele quem quebrasse a maldição. Ele conseguiu partir a noz, entregou-a à princesa e a beleza dela foi restaurada. Mas ainda faltavam os sete passos finais.

Quando restava apenas um passo, a Rainha dos Ratos surgiu do chão e mordeu o garoto. Ao mesmo tempo, ela acabou sendo pisoteada por ele e morta. Mas, como os passos não foram completados, o jovem foi transformado no Quebra-Nozes.

A princesa, ao ver o que aconteceu com seu salvador, ficou horrorizada. Incapaz de olhar para sua feiura, expulsou-o do reino em total ingratidão. Como de isso já não bastasse, devido à morte da Lady Rato, seu filho, que já havia nascido com sete cabeças, agora o novo soberano dos ratos, jurou vingança ao Quebra-Nozes. Com a conclusão desse relato, Marie se convence ainda mais de que aquilo que viveu foi real.

É impossível não perceber os paralelos entre os personagens. Na verdade, as semelhanças entre quatro figuras saltam aos olhos. O rei daquele reino distante, insensato e glutão, causa uma grande crise por causa do próprio egoísmo. Sua filha, a Princesa Pirlipat, mesmo tendo sido amaldiçoada pelo erro dos pais, reage com ingratidão àquele que a salvou quando finalmente é liberta.

Em contrapartida, o Quebra-Nozes, que salva a princesa sem esperar nada em troca, torna-se o príncipe dos brinquedos. Ele se faz feio e comum ao tentar salvar outra pessoa. E, mesmo expulso do antigo reino, continua bravamente lutando contra o Rei dos Ratos, unindo o seu povo. Já Marie se mostra uma verdadeira princesa: de coração bondoso e corajoso, ela enxerga além da aparência e reconhece caráter até mesmo em um brinquedo.

Mas a batalha ainda não havia terminado.

O odioso Rei dos Ratos começa a aparecer para a menina em seu quarto, exigindo coisas: comidas, doces, brinquedos, e até mesmo o seu amado vestido de seda, para que não destruísse o Quebra-Nozes. Como Marie amava e prezava por aquele príncipe, noite após noite foi cedendo a essas exigências. E acabou por cai em si de que nunca conseguiria satisfazer todas as exigências. Assim como ninguém pode.

O Quebra-Nozes, no entanto, como um bom príncipe de contos de fadas, ao descobrir o que estava acontecendo, decide dar um basta. Resolve enfrentar o inimigo por conta própria e partir para sua última batalha.

Ele se encaixa no arquétipo do herói, tão estudado por Joseph Campbell em O Herói de Mil Faces. Um herói que, no fim, sempre aponta para algo maior. O Quebra-Nozes é feio. A Bíblia diz que em Cristo não havia beleza alguma que nos atraísse (Is 53:2). Ainda assim, ele se sacrifica por alguém que mal conhecia, assim como Jesus se sacrificou por aqueles que não o conheciam, por todos nós.

O Quebra-Nozes vai ao encontro do grande mal, derrota o inimigo e leva todas as coroas até Marie. Todas as sete coroas. Cristo derrotou a morte e o pecado para nos reunir com Ele e nos entregar a coroa da vida (Ap 2:10; Tg 1:12). O Quebra-Nozes não é Cristo; ele é um tipo, mas ecoa essa mensagem, como todo bom herói.

E, como se já não bastasse toda essa simbologia, ele ainda se transforma em um verdadeiro príncipe, rei do reino dos brinquedos, e leva Marie para conhecer esse lugar. Posso afirmar, e ser bastante contundente ao fazê-lo, que jamais esperaria lembrar tanto do livro de Apocalipse quando comecei a primeira linha desse conto fantástico. Mas fiquei radiante por isso ter acontecido.

Se foi tudo imaginação ou não, pouco importa. O imprescindível é que as lições aprendidas transformaram Marie para sempre, assim como nós também podemos ser transformados ao ler esse livro encantador.

Então, nessa época do nascimento do Salvador, se você ainda não leu essa história, leia. Apresente-a às crianças e aos jovens ao seu redor. Inclusive, pode ser uma excelente forma de apresentar o Evangelho, o livro de Apocalipse, e de alegrar os nossos corações com essas verdades eternas.

Em uma noite de Natal, temos um inimigo maldito de sete cabeças, um herói que se sacrifica, a revelação de um reino maravilhoso onde não há brigas nem dor, e tudo ainda termina com o encontro de uma noiva com o seu noivo. Isso só mostra, mais uma vez, a graça comum presente na literatura: mesmo as histórias mais simples apontam para a verdadeira história que Deus já nos contou.

Vitória Salviano é formada em Publicidade e Propaganda pela UFC. Pós-Graduada em Literatura e Teologia pelo Instituto Reformado de São Paulo. Redatora publicitária, escritora, leitora crítica, amante da literatura e também fundadora do Santa Narrativa, uma comunidade para escritores cristãos de ficção.

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