Instituto Schaeffer

O Povo do Livro ou o Povo da Tela?

GABRIEL PIMENTA

fevereiro 20, 2026

Uma reflexão cristã sobre o consumo de telas e a produção de conteúdo na Internet.

Segundo a nova edição do estudo Consumer Pulse, realizado pela Bain & Company, os brasileiros passam mais de 9 horas por dia conectados à internet ou em frente a telas de dispositivos (smartphones, computadores e tablets). Esse dado está bem acima da média global de cerca de 6h38/dia. Dentro dessas mais de 9 horas, mais de 3h são dedicadas exclusivamente às redes sociais (geralmente repletas de vídeos rápidos e hiper estimulantes).

Em contraste, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pela IBOPE Inteligência, mostra que apenas 50% da população leu algum livro (impresso ou digital) nos últimos três meses; e apenas 26% leram livros inteiros nesse período. Segundo essa mesma pesquisa, apenas 16% das pessoas relataram ter lido a Bíblia no último trimestre.

Esses dados podem ser aterrorizantes para alguns e, para outros, apenas o esperado. Independentemente da sua opinião a respeito desses resultados, algo fica claro: muitos cristãos estão dentro dessas estatísticas de alto consumo de telas e pouquíssimo interesse pela leitura.

Num esforço para tornar o evangelho “cool”, muitas igrejas e produtores de conteúdo cristãos têm investido pesado na sua presença digital, produzindo conteúdo (por vezes bem raso) de forma voraz. Eles entendem a realidade da nossa sociedade, que cada vez mais prefere vídeos de no máximo 1 minuto a leituras exaustivas de capítulos bíblicos. O problema é que os evangélicos, até pouco tempo, eram conhecidos como “o povo do livro”. O afinco à leitura, interpretação e exposição das Escrituras sempre foram grandes marcas do protestantismo.

Será que, em vez de tentar nos adequar, nós deveríamos ser disruptivos e nadar contra a maré? Não me entenda mal: eu trabalho como Social Media desde os meus 15 anos; se o Instagram deixasse de existir da noite para o dia, eu perderia parte do meu sustento. O ponto que quero levantar não é negar a importância das redes, mas observar melhor como nós, como cristãos, consumimos e também produzimos conteúdo nelas.

Primeiramente, como indivíduos, precisamos constantemente nos policiar quanto ao nosso consumo de telas. Geralmente vemos mães fazendo isso com os filhos — checando o tempo de uso, olhando que tipo de sites ou apps eles estão acessando — mas e se eu dissesse que você também precisa fazer isso consigo mesmo?

Por vezes, nosso consumo digital é tão automático e irrefreado que nem paramos para analisar se o que estamos vendo tem algum impacto significativo (ou pelo menos ligeiramente positivo) nas nossas vidas. Não estou dizendo para você cortar de vez os vídeos de gatinhos fofos ou de humor duvidoso que você vê quase diariamente; estou dizendo que, se você tem um tempo considerável de tela e, no fim do dia, nem lembra do que de fato fez nessas horas, tem algo errado.

Algumas medidas simples podem te ajudar a ser mais consciente com o seu tempo de tela:

  1. Seja intencional: Ao acessar o seu celular ou tablet, saiba o que você irá fazer nele. Se vai entrar para responder uma mensagem, policie-se para não perder tempo rolando o feed. Se vai se dar 10 minutos de redes sociais, não permita que os 10 virem 30.
  2. Faxina periódica: Separe um tempo na sua semana ou mês para desinstalar apps não essenciais que têm te roubado muito tempo. Além disso, observe regularmente quem você tem seguido e o conteúdo que tem consumido, reavaliando se você ainda os quer na sua “vida digital”.
  3. Detox digital: Separe um dia da semana (ou do mês, se você realmente não conseguir) para ficar longe de redes sociais, apps de streaming e de compras. Eu, por exemplo, já há dois anos passo meu janeiro fora das redes por influência da Roberta Vicente (@robertavicente), que inclusive tem um livro devocional incrível sobre fé e consumo digital; eu indico demais a leitura, o nome dele é “Sagrado Agora”.

 

Agora, e quanto à produção de conteúdo: como nós, como cristãos, podemos produzir conteúdo de forma saudável?

Em primeiro lugar, entenda que, se você tem um perfil aberto nas redes sociais e posta nem que seja uma vez por mês, você é inevitavelmente um produtor de conteúdo. Por vezes pensamos que apenas aqueles que se intitulam como “influenciadores cristãos” precisam ter zelo com o que falam nas redes, mas lembre-se: todos nós somos embaixadores de Cristo e o representamos aqui na Terra.

Em segundo, precisamos ser equilibrados e entender que, por mais que as redes sejam uma ótima ferramenta para pregação, ensino e diálogo, elas nunca substituirão a igreja local. Você, produtor de conteúdo cristão com milhares de seguidores, em hipótese alguma terá um trabalho igual ao de um pastor de igreja local, por exemplo.

Em terceiro,precisamos nos libertar da tirania do que “viraliza”. É fácil nos tornarmos reféns das métricas e dos algoritmos, moldando nossa fala apenas para ganhar cliques. Em vez disso, devemos focar na criação de conteúdos que sejam verdadeiramente edificantes para a igreja e para o próximo, mesmo que não alcancem os grandes números. O compromisso deve ser com a verdade e com o serviço, e não apenas com a popularidade.

Por último, precisamos fazer da nossa produção uma extensão da nossa vida cotidiana. Devemos orar para que Deus nos livre da armadilha sedutora que é projetar uma imagem de “supercristão” na internet sem termos aberto nossa Bíblia há semanas.


Como vimos, esse é um tema que dá muito pano para manga e a minha ideia aqui não foi de forma nenhuma te dar todas as respostas, mas te instigar a refletir e estudar mais sobre o tema.

Como uma indicação, deixo aqui alguns livros que li (ou tenho lido) sobre o assunto:

Sagrado Agora (Roberta Vicente): Um devocional que aborda diretamente a nossa relação com o consumo digital, trazendo ferramentas para vivermos uma fé mais presente no hoje.

Você é Aquilo que Ama (James K. A. Smith): O autor discute como somos moldados pelos nossos hábitos e amores. Ele nos convida a perceber que o que fazemos repetidamente (nossas “liturgias”) treina o nosso coração para desejar certas coisas acima de outras.

Liturgia do Ordinário (Tish Harrison Warren): Uma reflexão sobre como a vida espiritual acontece no cotidiano — ao acordar, escovar os dentes ou comer. O livro cita brevemente o uso de aparelhos eletrônicos como parte dessa rotina que deve ser entregue a Deus.

A Pirâmide da Sabedoria (Brett McCracken): Um guia prático para navegarmos no excesso de informação atual, sugerindo uma “dieta” de consumo onde a Bíblia e a Igreja ocupam a base, em vez do barulho constante da internet.

Espero que essas dicas e leituras ajudem você a refletir sobre como ser “o povo do livro” em meio a tantas telas.

gabriel-pimenta

Gabriel Pimenta é graduando em Design e estudante de Teologia no Seminário Bíblico Maranata. Membro da Igreja Batista Maanaim ,Gerente de Conteúdo e Design no Insituto Schaeffer e Designer de Marcas Freelancer, apaixonado por arte, cultura, comportamento, discipulado e cosmovisão cristã aplicada.

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