Instituto Schaeffer

O Anti-Revoltado

DANIEL LEMOS

fevereiro 10, 2026

Certo dia, surge um homem de 45 anos: grisalho, alto e esguio. Ele ostentava o que os jovens de hoje chamam de… ‘aura’. Talvez o esforço para validar-se diante daqueles que não partilhavam de sua geração fosse tão latente que ele parecia almejar, incessantemente, fugir da própria idade.

Como professor de uma rede particular, da qual não necessitamos informar o nome, ele sempre instigava seus alunos a lerem obras das mais diversas, principalmente dos pré-realistas russos. Não era à toa que ostentava um quadro de Turguêniev. A vida, se lhe fosse possível, seria tão espiritual quanto a de Tolstói e devassa o suficiente como a de Rasputin. Sua bravura emulava a alma dos homens e mulheres bolcheviques em suas revoluções contra o sistema. — Bom dia, camaradas! — era como começava as suas aulas.

Havia um idealismo por trás daquela postura ignóbil: articular e pensar. Esse motivo levou seus pupilos, recém-saídos da puberdade, a lerem o livro 1984. — Orwell, rogo-te que esses jovens sejam libertados de si mesmos! — Era como uma prece à la gourmet de um veterano das trincheiras revolucionárias.

O tal dia mencionado no início chegou. Mas nem tudo são flores para o nosso herói. Uma velha conhecida bateu à sua porta para lhe desejar boa sorte na jornada: — Sra. Fibromialgia, há quanto tempo! Não demorou muito este mês, hein? Ah, meus amigos, era de se esperar. O espinho na carne do nosso protagonista não era o de São Paulo; era o espinho do terceiro inferno. Nem Dante, em todo o seu virtuosismo linguístico, conseguiria conceber castigo tão infame. Mas nada abala o mestre: hoje ele vai mudar vidas.

Ao chegar na porta da sua sala, as mentes que iriam se formar estavam plenamente prontas para se revoltarem.

​— Bom dia, camar… — Antes de terminar sua frase inicial, o mestre foi interrompido.

— Professor, meu pai disse que essa frase é de comunistas, e comunistas são idiotas — disse um aluno, com o tom sarcástico que só um adolescente consegue imprimir.

— Talvez o seu pai devesse escolher melhor a educação da família e seu amor por um certo político — retrucou com ar de desprezo; nada iria atrapalhar sua aula.

— Hoje vamos estudar um livro que mostra… Sim?! — Sua atenção voltou-se ao mesmo aluno, que insistia com a mão levantada.

— O senhor devia ser denunciado por colocar suas ideias na gente!

— Cala a boca, deixa de ser retardado! — uma aluna resolveu colocar sua opinião à tona. O professor sorriu de soslaio; afinal, sua opinião era a mesma.

— Cala a boca você, sua @#*!! Não se intromete, que mulher calada é melhor. — A frase saiu de forma inesperada que só um adolescente consegue, e um silêncio espantado tomou a sala.

— Ei, respeita minha namorada, seu… — Outro jovem levantou-se, pronto para a briga.

​O professor percebeu que as coisas fugiam ao controle. Aquela atitude mostrava que a revolta dos alunos estava chegando ao ápice; seus desejos estavam aflorados como os de uma alcateia rumo a mostrar o poder da força e de suas ideias. O homem sentia ter chegado ao seu destino final, mas aqueles meninos não poderiam perder o controle diante de sua autoridade. Quando ia intervir, uma dor nas costas atingiu-o como uma faca de dois gumes, deixando-o sem ar e estático. Os alunos já não reparavam nele; seus olhos estavam no ringue que se abria entre os socos dos colegas.

O que era até então uma sala virou um Coliseu. Os gladiadores lutavam por sua honra no palco de uma sociedade que incentivava os dois como uma briga de galo. Aquilo que estava em jogo era a liberdade de expressão. Seus nomes entrarão no rol dos heróis do Olimpo Escolar. Não existirá mais câmeras de segurança e monitoramento das redes, não haverá proibição de gírias e impor termos ideológicos. Não existirá mais programação obrigatória, voto obrigatório, o povo respeitará um líder apenas e nele teremos a confiança de um mundo melhor. Uma autoridade máxima para controlar a sala. E quem controla a sala?

Prostrado ao chão em sua agonia, o professor já não se importava com os autores que moldaram sua existência; não estava mais pronto para lecionar, apenas para resistir. Lutava, agora, estritamente por sua sobrevivência. Afinal, se dois mais dois seriam cinco, ele já não ligava. Em seus últimos momentos, esquecido ali no assoalho da sala de aula, percebeu que tudo não passava de vaidade e que, finalmente, o seu tempo havia chegado.

Daniel Lemos

Daniel Lemos é um profissional da área de logística de transportes públicos. Membro da Igreja Batista Bereana, é casado e tem um filho. Tem experiência em redação publicitária e autor de artigos voltado à esportes americanos. É estudante de teologia. O sobrenome já sugere que ele gosta muito de ler. E, na escrita, sua mente o levou à poesia, à ficção e ao suspense. Alguns de seus textos podem ser encontrados em blogs pela internet.

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